segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ponthus e Sidoine, reis de Galiza e Bretanha


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A finais do século XIV, un anónimo escritor bretón, «quizais un pai ou preceptor«, redactou o Roman de Ponthus et de la Belle Sidoine, un libriño ilustrado destinado á ensinanza e entretemento dos fillos da nobreza bretona. Podería ser unha noveliña máis de cabaleirías, xurdidas ao abeiro da rica tradición artúrica comezada por Chrétien de Troyes, pero para nós é algo máis.

A novela narra un conflito a escala global, no que o protagonista é Ponthus, o fillo do Rei suevo de Galicia Thibour. Durante o século V ou VI, un enorme exército de 30.000 musulmáns capitaneado por Broada, Sultán de Babilonia, desembarca na Coruña co obxectivo de conquistar o país. A desfeita é total. Thibour morre en combate, o reino cae; a penas Ponthus, o seu fillo, consegue escapar en barco con trece leais. Chegarán ás costas da Bretaña, onde serán acollidos polo lugartenente do rei, e alí Ponthus farase un home de renome, aínda que pasa por momentos de desdita. Traizoado por un membro do seu séquito galego, Gannelet, exíliase ao máxico bosque de Brocelianda, como xa fixeran antes os cabaleiros do ciclo artúrico e Merlín. Alí gañará sona de gan cabaleiro xustador. O bosque de Brocelianda, na Bretaña, lugar de retiro de Ponthus.

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 No Roman de Ponthus et de la Belle Sidoine toda Europa vive asolada pola ameaza sarracena. Ponthus repele as invasións musulmanas na Bretaña e en Inglaterra, e serve como cabaleiro de fortuna ao rei inglés fronte aos irlandeses. Todo el é un modelo cabaleiresco, namorado de Sidoine, a filla do Rei de Bretaña, de quen numerosos subterfuxios, trampas os enemigos a separan. O seu amor, pola contra, perdura contra todo. Ponthus recrea as historias de Ulises, errante, fóra da súa terra, valéndose co seu enxeño para zafar das emboscadas; ao mesmo tempo é Lanzarote, orfo de pai e nai e fillo de rei estranxeiro que prospera grazas á súa valía persoal. Despois de matar ao esposo de Sidoine, o Duque de Borgoña, e casar con ela, Ponthus consegue a vella arela de volver a Galicia e reconquistar o país. Logo, co territorio pacificado, volverá con Sidoine de peregrinación a Compostela.

A noveliña, editada en galego como Ponthus e Sidoine, reis de Galiza e Bretaña por Paulo Nogueira, é un libro de gravados, no que cada aventura é insinuada con apenas un verso que acompaña a unha ilustración. Non é difícil imaxinar que era unha historia pensada para ser contada e imaxinada nova cada vez, que podía estenderse oralmente na dirección que marcasen os camiños da noite e o interese dos nenos. Hoxe, cos cambios no ritual da lectura, devorámola en a penas vinte minutos. Pero son vinte minutos emocionados: fálannos dunha Galicia imbricada no mundo atlántico do que nunca deberamos ter marchado, cunha identidade propia de reino independente, con cidades coñecidas a nivel internacional, mergullada nas lendas do ciclo artúrico, na fronteira coas civilizacións africanas do sur. E está aí: non é unha invención de Murguía, da Xeración Nós, ou un desideratum de celtistas exaltados. É unha chamada con cornamusa desde outra das fisterras a través dos séculos. Unha lectura moi moderna. 

http://www.manuelgago.org/blog/index.php/2007/06/17/ponthus-e-sidoine-reis-de-galicia-e-bretana/

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Irrefutável, ou?

Video curtinho e clarinho. Irrefutável, diria eu.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Reino Suevo na historiografia

O Dr. Anselmo López Carreira apresenta-nos esta mágnifica palestra para comemorar o 1600 aniversário da fundaçom do nosso Reino da Galiza no 410 como o primeiro reino europeio.



Este é o primeiro de quatro, se vos interessou aqui podedes ver os outros três:


P.S: Há tempo lembro que puxera já algum video de Anselmo López Carreira, espero nom tenha sido este, penso que nom

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Mudança de Paradigma 2ª Parte: Que é o que se ensina na Galiza. O paradigma galeguista

Por José Manuel Barbosa


A Galiza é politicamente um apêndice da Espanha, e isto é assim do ponto de vista legal-institucional como até o dia de hoje também é o País Basco ou a Catalunha. A Galiza também é um apêndice da Espanha no seguimento oficial da ideologia, muitas vezes, anti-galega, cousa que não acontece nos dous países antes nomeados que sabem defender os seus interesses políticos e económicos por acima do poder estatal. Assim, a Galiza reproduz o paradigma castelhanista tanto no ensino como maioritariamente na investigação, exceptuando honradíssimos casos como os de Camilo Nogueira, Anselmo López Carreira, João Bernárdez Vilar, José António López Teixeiro, André Pena Granha, Higino Martins Esteves, ou os históricos Ricardo Carvalho Calero e Ernesto Guerra da Cal, e ainda mais alguns que não nomeio por falta de espaço.








Nos estudos oficiais na Galiza ensina-se o seguinte:

· A Cultura chamada Castreja e os Celtas têm pouco ou nada a ver, de forma que qualquer elemento civilizacional galaico se diz de origem mediterrânico. Na época romana a Gallaecia quase não existe. Tudo é latino do ponto de vista cultural e latim do ponto de vista linguístico. O elemento indígena não achega nada útil à formação da futura Galiza e Roma é quem a inventa. Antes de Roma não há nada. É o vazio.







· Os suevos são um povo bárbaro, no senso pejorativo da palavra, que não deixa pegada nenhuma e o seu Reino é anedótico. Os suevos são bárbaros e os visigodos estão romanizados, o que significa que são mais civilizados. São estes últimos os que marcam a personalidade de toda a península incluída a Galiza. Não há elementos importantes e interessantes a salientar para a historiografia europeia no Reino Suevo, nunca Reino de Galiza ou Gallaeciense Regnum.







· Os muçulmanos ocupam também a Galiza (porque ocupam “Hispania tota”) que já nesta altura se identificava territorialmente com a Galiza actual. Astúrias é um Reino que “reconquista” e “repovoa” Galiza (4) para a causa cristã e a importância do País do apóstolo São Tiago descoberto por um Rei asturiano é mínima. Galiza é um ninguém, não tendo qualquer protagonismo nem militar, nem social, nem económico, nem quaisquer outros. Nesta altura é Astúrias a importante que lhe passa a testemunha a Leão e esta finalmente a Castela. Durante toda a Idade Média a Galiza é um objecto passivo nos acontecimentos da parte cristã da península e passa a ser um “Reino” pontualmente duas ou três vezes por acidentes políticos que se reencaminham da mão de Reis com interesses leoneses ou castelhanos (que finalmente vinha a ser o mesmo). Ser Rei de Galiza (a Galiza entendida territorialmente como a de hoje, não como a real daquela altura) é como não ser nada e normalmente nem se nomeia na historiografia geral peninsular porque os Reis da Galiza são Reis muito pontualmente ou são segundões sem transcendência histórica. Tudo em função de Castela (ou Castela-Leão) (5)





· A independência de Portugal conta-se como um acontecimento que tem “algo” a ver com a Galiza.





· Algum Rei chamado o Sábio deu-se-lhe curiosamente por escrever em galego porque era esta uma língua muito linda e poética mas esse rei era castelhano e a língua por excelência de toda a historiografia oficial é a de Castela falada pelos personagens realmente importantes como o Cid, ou o Rei do qual era bom vassalo como Afonso VI, também castelhano mas mal Senhor porque não defendia os interesses castelhanos.





· Os séculos XIII e XIV são séculos de lutas dinásticas entre Reis e revoluções sociais, mas nada se diz do lugar que ocupa a Galiza em tudo isto, as autênticas motivações, interesses, apoios e projectos da Galiza nestes séculos. Também nada se diz do que Portugal faz a respeito de Galiza.





· Os Reis chamados Católicos, Isabel e Fernando, foram os que “domaram e castraram” Galiza mas também são os que lhe dão gloria e unidade a Espanha. Há alguns que mesmo defendem na Galiza a conversão da Isabel I Trastâmara de Castela em beata como primeiro passo para a sua ascensão a Santa.





· Nos chamados Séculos Obscuros (de final do S. XV até a chegada de Napoleão à península) só há história económica (6), a história política está reservada para a Coroa de Castela ou o Reino da Espanha que vinha ser o mesmo. Galiza era um país de camponeses e marinheiros sem qualquer poder político e por algum personagem mais conspícuo do que os outros porque serve à Coroa.





· Durante os séculos XIX e XX Galiza só achegou escritores e galeguistas que não andavam metidos na política e por isso foram importantes. Todos eles sentiram-se muito espanhóis e o galeguismo é um pensamento mais do que nada cultural embora tivesse uma expressão regionalista que o espanholismo assume com normalidade. Mesmo o galeguismo nacionalista tinha disto último só o nome, porque todos os galeguistas defendiam a ideia de Espanha.




Qual é o paradigma galeguista?

Diz-se habitualmente que a história é contada sempre pelos vencedores. Neste caso, o paradigma galeguista é o que não triunfou e é por isso pelo que para além de não ser oficial, nem se ensina, nem se acredita nele. Mesmo as provas, as evidências, os documentos, os textos e as pessoas que os expõem tenham da sua parte toda a autoridade e a veracidade.

· Antes de Roma o N.W. peninsular estava habitado por um povo proto-celta matriz dos celtas do mundo Atlântico. Assim é como no-lo demostram os estudos de várias universidades britânicas seguindo estudos genéticos e mesmo a moderna Teoria da Continuidade Paleolítica de Mário Alinei, Francesco Benozzo e ainda o anteriormente o Professor galego André Pena Granha que já expus esta teoria, pelo menos no que diz respeita ao Noroeste peninsular vários anos antes do que fosse exposto pelos professores italianos, mas como na Galiza tudo passa pela peneira castelhanista não houve forma de que transcendesse.






· A língua dos chamados galaicos e lusitanos era a mesma e ocupava todo o Norte e o Oeste da península até o Tejo aproximadamente. Portanto, o parentesco galaico-lusitano era já anterior a Roma. Roma só dividiu pelo Douro com o fim de dividir para vencer. Prova importante para isto é que nas guerras lusitanas participassem tropas galaicas. Se os galaicos forem outro povo muito distante e alheio aos lusitanos essas guerras não seriam da sua incumbência e portanto não participariam.



· Durante a ocupação romana, a Gallaecia foi uma das províncias do império mais sucedidas economicamente, culturalmente e do ponto de vista artístico sendo o elemento indígena fulcral. Figuras como Prisciliano, Egéria, Paulo Orósio, e Idácio Lémico foram prova da importância da Nossa Terra. A figura de Prisciliano poderia equiparar-se a outras paralelas dentro do mundo céltico e atlântico como São Patrício, São Davide ou Santo André. Aliás, Prisciliano, pode dar pistas a respeito do fenómeno Jacobeu já que há quem assegura que quem realmente está (ou estava) em Compostela não era São Tiago, mas Prisciliano. As provas não são determinantes, mas a lógica leva por esse caminho.




· Os suevos, um povo germânico dos mais evoluídos e “romanizados”, constituíram na Gallaecia, a zona mais rica e desejável para eles da península, o primeiro Reino independente de Roma com um projeto militar e político de unificação peninsular com capital em Braga e com o apoio, colaboração e implicação dos galaicos que o sentiam como seu. A importância dos mesmos é grande: Com eles a Gallaecia constituiu-se no primeiro Reino medieval da Europa; foram os primeiros em emitirem moeda, o Sólidus suevo; os primeiros em legislar, administrar e construir um Estado; o primeiro Reino cristão após Roma; os criadores da mal chamada “letra visigótica” já que na realidade começou a existir na Gallaecia antes da chegada dos godos; os criadores da primeira arte pré-românica com elementos como o chamado arco de ferradura que na historiografia castelhanista diz-se visigodo; os primeiros em assumirem o cristianismo católico antes do que qualquer outro povo germânico, por isso a sua aceitação pelos galaicos. Na historiografia castelhanista diz-se que foram os visigodos os primeiros em aceitarem o catolicismo...




· Durante a unificação suevo-visigótica a Galiza manteve a sua personalidade política e administrativa, cultural, social e económica, contrariamente à ideia castelhanista dum Reino unificado visigótico com capitalidade centralista em Toledo e primeira amostra de Estado Espanhol pan-peninsular. Os Reis tinham o título de “Reis de Espanha, Galiza e a Gália” entendendo que a Galiza e a Espanha eram realidades diferentes. A Gália num princípio ocupava a actual Ocitânia para posteriormente ficar só na Septimánia ou Narbonense.




· A entrada dos muçulmanos na península deve-se à chamada dos vitizanos galegos. O domínio muçulmano da Espanha excluía por definição a Galiza fazendo desnecessária qualquer intervenção militar por parte destes por contarem com o apoio dos seus aliados vitizanos que eram quem tinham o poder na Galiza. Posteriormente a Galiza manteve um vazio de poder no conjunto do País mas governado por régulos de entre os que haveria que salientar os das Primórias, nome que se lhe dava naquela altura às comarcas do actual oriente asturiano e que levaram a iniciativa na posterior unificação de toda a Galiza. Da territorialidade da Galiza suevo-visigótica, só a região conimbriguense fez parte da Spânia (ou Al-Ândalus) para posteriormente ser recuperada e volta a perder por várias vezes por e para a Galiza.




· O nome do “Reino de Astúrias” ou “Reino de Leão” não é o que está recolhido nos documentos andalusis, carolíngios, papais, germânicos, anglo-saxónicos, bizantinos e escandinavos. O nome que figura neles é o de “Reino de Galiza” ou mais justamente em latim “Gallaeciense Regnum” (às vezes “Christianorum Regnum”). Dentro dos textos peninsulares, só uns poucos safaram da manipulação posterior do século XIII e posteriores. Os outros, redigidos muito posteriormente aos eventos que narram (7) não são fiáveis.



· Os conceitos de “Reconquista” e “Repovoação” não são interpretados igualmente pela historiografia galega e a castelhana. Para a castelhana é a recuperação do território nacional perdido por conquista e invasão muçulmana, mas para a historiografia galega nunca existiu um programa consciente durante a Idade Média de ocupação da Espanha muçulmana, nem um processo cronológico continuado de conquista. Desde a reunificação da Galiza após a entrada muçulmana até o século XI não houve variações importantes de limites territoriais. Contrariamente houve variações desde a anexação de Toledo, momento desde o que começa realmente o avanço cristão desde o Norte. Por outra parte “Repovoar” é interpretado para o castelhanismo como “tornar a povoar o que antes estava vazio ou povoado com outras pessoas alheias dum ponto de visto étnico e que houve de expulsar para manter a uniformidade nacional”. No entanto, segundo a versão galega a palavra “Repovoar” vem do latim originário REPOPULARE que vem sendo tornar a organizar um território, não do ponto de vista demográfico mas do administrativo e do político.




· Segundo o paradigma galego, o Reino de Galiza foi o protagonista da maior parte da Idade Média e o projecto de unificação peninsular. Castela surgiu quando esse projecto já estava encaminhado fazendo-se com ele e manipulando a historiografia. Para Castela, a Galiza simplesmente não existe, nem antes nem depois. Durante o Século XIII em adiante se vai levar a cabo por meio de determinadas pessoas com nomes e apelidos a eliminação do nome da Galiza dos documentos e o processo histórico leva a eventos que consolidam Castela como a construtora da actual Espanha (8). A separação de Portugal, a castelhanização de Leão e a união de Castela com Aragão fecham o processo.




· Os chamados “Séculos Obscuros” enquadrados dentro da Idade Moderna para o nosso paradigma não são tão obscuros. Na Galiza houve vida política embora dependente e com vontade de recuperação em alguns casos. O maior e mais importante episódio desta época é o seu final, quer dizer, a guerra contra os franceses no que a Galiza de facto agiu com total independência, com o seu governo, o seu exército, a sua política fiscal e diplomática e de facto quem conseguiu com ajuda do exército aliado britânico a expulsão dos franceses da Espanha e a derrota de Napoleão. O nosso País foi o primeiro da Europa em ficar livre de franceses. Infelizmente a ideia de fidelidade a um Rei fez com que essa independência de facto fosse cedida a uma monarquia quem poucos anos depois (em 1833) eliminaria o “Reino da Galiza” da cartografia, da legalidade, da diplomática e da nomenclatura para criar quatro províncias sem mais conexão entre elas do que pudesse haver com outras do novo “Reino da Espanha”.




No que diz respeito da língua, o paradigma galeguista sempre defendeu a unidade linguística galego-portuguesa e a necessidade da unificação e confluência entre as falas galegas e as portuguesas. Há hoje um galeguismo que isso não aceita, mas é o “galeguismo” oficial e dependente chefiado pela mesma ideia que gere o paradigma castelhanista. A origem da nossa língua está naquele “Gallaeciense Regnum” medieval que se quer negar desde Castela e ainda naquele “Galaico” ou “Proto-Galaico” do século X do que nos falam Carvalho Calero ou Rodrigues Lapa está mesmo a origem do castelhano que não é mais do que uma variante oriental extrema do Asturo-leonês ou galaico-oriental em contacto com o substrato basconço. O galego-português é a variante que os nossos vultos denominam como galaico-ocidental. O famoso “Mio Cid” não está redigido originalmente em castelhano medieval porque este não existia, mas em navarro-aragonês como nos dizem mesmo prestigiosos autores espanhóis como Rafael Lapesa ou Alonso Zamora Vicente. As chamadas “glosas emilianenses” e “glosas silenses” origem do castelhano segundo nos contam na escola, no liceu e na universidade não estão em castelhano, mas em navarro-aragonês. O castelhano é uma língua que se elabora a partir das falas de contacto entre o galaico-oriental (ou astur-leonês), o basco e o navarro-aragonês que era uma fala emparentada com o gascão e o catalão. No tema da língua o supremacismo castelhano e castelhanista agiu do mesmo jeito: destruindo documentação, manipulando informação e reduzindo o protagonismo da Galiza e do galego(-português).


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O que a verdade esconde. 1º parte.

Interessante artigo. Umha parte mais da nossa História oculta e ocultada.


Por José Manuel Barbosa


Desde que Camilo Nogueira em 1996 começasse uma série de trabalhos relativos à recuperação da memória coletiva da Galiza culminados com o seu livro “A memória da nación. O Reino da Gallaecia” em 2001 e posteriormente os importantíssimos trabalhos de Anselmo Lopez Carreira com “O reino medieval de Galicia” em 2005, Xosé António Lopez Teixeira“Arredor da conformación do reino de Galicia (711-910)” e Xoán Bernardez Vilar entre outros, fazem manifesta a existência duma visão galega da História da Península com toda claridade.

Com os textos dos nossos historiadores podemos demonstrar o protagonismo do nosso País durante toda a etapa medieval e ainda reconhecer um silenciamento intencionado do nome da Galiza assim como a usurpação intencionada de factos, personagens, iniciativas, eventos e demais elementos históricos e historiográficos em benefício de Castela ou dum conceito muito exclusivista do hispânico e da Hispânia, sempre castelhana.

Centrando-nos muito concretamente na Idade Media, há do meu ponto de vista alguns elementos a comentar que quereria salientar para ajudar a botar abaixo certos conceitos e mitos que em nada se ajustam à realidade histórica e por isso em nada beneficiam à ideia duma Galiza existente na História da Hespéria.

A Littera visigothica.

Testamento de Múnio Ramiz. Mosteiro de São Pedro de Valverde. Monforte de Lemos (Galiza). Ano de 1115

Aqui há um elemento no que a Galiza tem algo a dizer. É este um tipo de grafia medieval que ocupa os documentos dos séculos da Alta Idade Média. Também é chamada “littera toletana” ou “littera moçarábiga” ainda que todos os autores que estudam a ciência paleográfica concordem unanimemente em que nenhum desses nomes é correto.

O nome de “visigothica” não é correto, porque segundo eles as manifestações deste tipo de letra se dão no seu máximo esplendor após a chegada dos muçulmanos à Península, quando já o Reino Visigodo estava morto.

O nome de “moçarábiga” também não é correto porque não foi entre os moçárabes cristãos andalusis onde nasceu nem onde se desenvolveu com maior personalidade, sendo este povo utente de várias línguas romances particulares que se dão em chamar de “moçárabes” grafadas com ortografia árabe. Quer dizer é o chamado “aljamiado” ou língua romance escrita com grafia árabe. Havia textos em latim mas estes eram escritos com grafia latina versão “visigothica” embora com certas particularidades dependentes nas formas quer do norte cristão quer do mundo muçulmano no que viviam inseridos.


Texto em aragonês aljamiado. Livro de Iusuf

Outro nome que se lhe tentou dar a este tipo de letra foi o de “littera toletana”. O nome não teve muito sucesso como também não teve sucesso o denominá-la “littera hispânica”

Como vemos, esses nomes para este tipo de letra não atendem a uma realidade originária visigótica, nem a uma realidade de uso, como também não é moçarábiga nem toledana, onde não nasceu nem onde foi comum o seu uso, nem se cinge única e exclusivamente ao mundo hispânico, já que como uso gráfico foi partilhado por certas regiões da França mediterrânea, nomeadamente a Septimánia.

No entanto, parece ser que o exemplar mais antigo conservado deste tipo de escritura é a inscrição dotal de São Pedro de Rochas, cenóbio próximo à cidade galega de Ourense. O texto está datado no ano 611 segundo a cronologia da Era Hispânica, quer dizer, trinta e oito anos menos se o ajustamos ao cômputo pelo que nos regimos na atualidade que corresponderia ao 573 da nossa Era. Faltavam ainda doze anos para que a Galiza caísse nas mãos conquistadoras do Rei Leovigildo dos visigodos e parece, pelo texto, que era hábito usar este tipo de estética gráfica desde havia muito tempo.

Inscrição dotal do Mosteiro de São Pedro de Rochas de 573
Quiçá o nome mais adequado para este tipo de grafia fosse “littera gallaeca” ou “littera suévica”?

Reparemos em mais pormenores:


Vejamos a feição das letras desta escritura "visigóthica" (ou melhor galaica ou suévida) e reparemos na letra Z. A sua configuração é uma evolução da dseta grega z. Esta daria origem com o tempo a conhecida letra que denominados cedilha ou zedilha cujo nome é um diminutivo de “zeda” ou “zeta”.




Na passagem da letra mal chamada visigoda para a carolina -nova grafia usada a partir dos séculos XII e XIII em adiante-, o Z com viseira acrescentaria ou hipertrofiaria esta até parecer um C com uma pequena virgulinha. Essa letra seria muito sucedida e de muito uso nas línguas da península ibérica e mesmo no ocitano e no francês (langue d’oil). Pensamos que ao Ç podemos atribuir-lhe uma origem galego-portuguesa por ser esta a primeira língua culta da Hespéria mesmo antes de que o castelhano fosse de uso comum, o qual segundo autores como Rodrigues Lapa, Eugênio Cosériu ou Carvalho Calero não deixaria de ser uma variante local estremeira do galaico oriental ou astur-leonês em contato com falares e substrato basconço do oriente burgalês. A primitiva Castela.

O uso do zedilha ou cedilha acabou estendendo-se por todas as línguas da península e mesmo pelas línguas da antiga Gaula ou Gália, e ainda por outras mais longínquas como o albanês, turco, romeno, letão,etc...

É curioso como uma das grandes críticas que o isolacionismo linguístico galego faz do uso do NH e do LH é que estes dígrafos são estrangeiros, procedentes do ocitano. Não se diz que também o é o CH e no entanto não se discute o seu uso em galego (porque também se usa no castelhano!!!) mas a origem do Ç é galaica exportada a outras línguas. Não vi ainda nenhum isolacionista defender o seu uso para a língua dos galegos.

Também é curioso que após o uso continuado desta grafia (Ç) em castelhano até 1726, fosse deixada de usar nos textos galegos quando a R.A.E. (Real Academia Espanhola) publica no seu “Diccionario de Autoridades” a norma pela qual é substituída pelo Z. Ainda assim alguns autores, como a própria Rosália de Castro utilizam o Ç nos seus textos levada pela lúcida intuição da nossa poeta nacional por excelência. Infelizmente o seguidismo gráfico está presente hoje mais do que nunca.


Y ó fin soya quedei, pero tan soya
Qu’hoxe, d’a ,mosca inquieto revoar,
D’o ratiño o roer terco e constante,
E d’o lume o chis chas,
Cando d’a verde pónla
O fresco sugo devorando vai,
Parece que me falan, qu’os entendo,
Que compaña me fan;
Y este meu coraçon lles di tembrando
¡Por Dios!...¡non vos vayás!
Que doce, mais que triste
Tamén é a soledad!

Rosália de Castro. Folhas Novas


O assunto das grafias tem especial importância, já que nos descobre a usurpação da origem dum elemento no que na historiografia oficial nada se diz nem nada nos faz pensar que seja galego ao ser denominada comumente de "visigothico".


Como isso há mais cousas nas que incidiremos.

Continuará......

domingo, 11 de setembro de 2011

Bom golpe de fouce, segadores!!! 11Sept: Dia nacional de Catalunha

Els Segadors (os segadores em galego) é o hino nacional de Catalunha. A letra actual compuxo-se em 1899. Está baseado, numha antiga cançom da revolta de 1640 ( Guerra dos 40 anos) dos camponeses contra o o abuso das tropas castelhanas que se encontravam no principado para loitar em contra dos franceses. O hino tem as características dum chamamento em defesa da liberdade da terra. Recolhe os feitos acontecidos durante o chamado Corpus de Sang (Corpus de Sangue), umha revolta protagonizada por um milhar de segadores o 7 de Junho do 1640, dia de Corpus Christi, em Barcelona.



Catalunya triomfant,
tornarà a ser rica i plena.
Endarrera aquesta gent
tan ufana i tan superba.

Catalunha triunfante,
volverá ser rica e plena.
Atrás esta gente
Tam arrogante e tam soberbia.

Bon colp de falç,
Bon colp de falç,
Defensors de la terra!
Bon colp de falç!

Bom golpe de fouce,
Bom golpe de fouce,
Defensores da terra!
Bom golpe de fouce!

Ara és hora, segadors.
Ara és hora d'estar alerta.
Per quan vingui un altre junyes
molem ben bé les eines.

Agora é a hora, segadores,
Agora é a hora de estar alerta.
Para cando chegue outro junho,
afiemos bem as ferramentas.

Bon colp de falç,
Bon colp de falç,
Defensors de la terra!
Bon colp de falç!

Bom golpe de fouce,
Bom golpe de fouce,
Defensores da terra!
Bom golpe de fouce

Que tremoli l'enemic
en veient la nostra ensenya.
Com fem caure espigues d'or,
quan convé seguem cadenes.

Que trema o inimigo
cando veja a nossa bandeira.
Como fazemos cair espigas d'ouro,
cando convém segamos cadeias.

Bon colp de falç,
Bon colp de falç,
Defensors de la terra!
Bon colp de falç!

Bom golpe de fouce,
Bom golpe de fouce,
Defensores da terra!
Bom golpe de fouce!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Os retaliados do bairro

A Gentalha do Pichel fixo cartazes que colou por Compostela para lembrar aos retaliados no levantamento de há 75 anos. Interesante botar-lhe um olho aos nomes, profissons e penas que cargarom... Mençom especial às Marias... Clikar par ampliar a imagem, e segundo clik para fazer zoom.




http://agal-gz.org/blogues/index.php/gent/2011/07/18/intervencom-no-bairro-polo-75-aniversario-do-alcamento-fascista

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Homenagem às duas Marias


O Ateneo de Santiago e a asociación cultural O Galo queren cubrir a Alameda de Santiago de cor, “como lles gustaría ás Marías”. Hoxe ás dúas en punto –nome polo que tamén se coñecen as irmás Fandiño– as flores encherán de vida un día que hai 75 anos converteuse no aciago espello dun futuro escuro. As dúas compostelás, duramente represaliadas no franquismo pola súa pertenza a unha familia de esquerdas, precisaban desta homenaxe popular que nace, como di Encarna Otero, “da unión de varias persoas que comezaron a falar”. Falar e recordar, quizais sexa o que fai falla nesta sociedade, aínda que “das cousas de Santiago non se pode falar”. Pero si escribir e así o fixo Bernardino Graña, que define á perfección ás Marías no seu poema “Rosas de trapo”. A súa lectura no recital poético do luns na Alameda servirá como homenaxe a dúas mulleres que foron a esencia do outro Santiago que non estaba encorsetado polo catolicismo da época da posguerra e a ditadura franquista.


As Marías eran inicialmente tres, aínda que a terceira maría non puido acompañar as súas irmáns por moito tempo, e saían cada día a pasear dende a rúa do Espírito Santo para percorrer a zona vella ata a Alameda. Maruxa–a maior das dúas– e Coralia “poñíanlle a cor a unha cidade escura”. As súas chamativas vestimentas “de todas as cores do arco da vella” valéronlles recibir o nome por parte dos “estudantes máis liberais, de Igualdade, Liberdade e Fraternidade”.

As dúas irmás, costureiras, deseñaban as “súas propias roupas coas telas que lles daban as tendas”. Mais os seus vestidos non eran máis ca trapos que “escondían os seus corpos escuálidos”. A felicidade que transmitían as súas vestimentas e a actitude transgresora que amosaban nos seus paseos –falaban cos rapaces e piropeábanos, cousa impensable para as damas compostelás– convertéronas nunhas mulleres excéntricas.

Seque aqui: http://www.xornal.com/artigo/2011/07/16/cultura/longo-paseo-das-duas-punto/2011071623175000246.html

Represión durante a Guerra Civil

A familia Fandiño Ricart estaba formada por once irmáns, fillos dun zapateiro da Rúa Espírito Santo, tres dos cales Alfonso, Antonio e Manuel, estaban inseridos no movemento anarquista coma militantes da CNT, ata o punto que un deles, Antonio, chegou a adquirir unha alta responsabilidade na organización durante a guerra. Un destes irmáns foi paseado durante a guerra, e os outros dous fuxiron, mais finalmente foron descubertos e encarcerados. Para dar con estes irmáns fuxidos, crese que a Policía Social torturou a Coralia e a Maruxa, e mesmo que incluso unha delas foi violada nomonte Pedroso.
Non está claro se elas pertenceran ao movemento anarquista, pero si se cre que a súa ideoloxía era de esquerdas. O xornalista Raimundo García Domínguez, Borobó, mantivo que eran membros da CNT, coma os seus irmáns, e que mesmo levaran a cabo tarefas de enlace con sindicalistas fuxidos.


Simpatía da veciñanza

As dúas irmás caeron na pobreza logo de que os veciños da cidade deixaran de facer pedidos ao taller de costura que rexentaban, para que a policía non os vinculase a elas. Maila a este medo, a veciñanza compostelá sentía en xeral simpatía cara elas, e cando logo da guerra pasaron a vivir da caridade, quen querían axudalas non lles daban a esmola directamente, senón que mercaban cousas para elas nos comercios da cidade, nomeadamente nosupermercado Carro, situado na Praza do Toural, onde o dono Tito Carro llelos daba coma se foran promocións e non caridade. Así mesmo, segundo conta Fermín Bescansa, nunha ocasión unha treboada estragou o teito da súa vivenda, e organizouse unha colecta que xuntou 250.000 pesetas, o valor dun piso da época.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Códice Calixtino: oh!!

A existencia do Códice Calixtino, como todo o patrimonio histórico-cultural, material ou inmaterial, de Galiza, foi descoñecido, ignorado ou menosprezado pola inmensa maioría dos galegos e galegas. Así adoita pasar en toda colonia que o é sen recoñecelo.

Por Francisco Rodríguez | | 10/07/2011

O seu recente e estrafalario roubo veu impactar mediaticamente na sociedade galega, como unha sorpresa de pasmo e admiración, á vista de que voces autorizadas e oficiais subliñaron, compunxidas, a importancia desta xoia da literatura medieval en lingua latina e do seu exemplar máis antigo depositado no Arquivo da Catedral de Santiago. Certamente contén prodixiosa información histórica, relixiosa, musical, poética, artística, social e mesmo económica sobre o século XII na Galiza e na Europa.

Bebamos na súa fonte. Tiremos do libro información. Por exemplo, Viseu, Lamego, Coimbra, Lugo, Ourense, Iria, Tui, Mondoñedo, Braga, Guimarâes, Coruña e Compostela son consideradas todas elas cidades galegas. En contraste, cando enumera outras de distintos puntos da Península que non son a Galiza histórica, denomínaas españolas. Alguén murmurará: que disparate! Para o autor ou autores do texto, seguramente da Galia, os galegos acomódanse máis perfectamente ao seu pobo galo, que os demais pobos da Península, aos que considera de atrasados costumes. Outro rosmará: que barbaridade! Atribúense ao Papa Calixto II palabras que sitúan a Galiza no mesmo campo e categoría semántica que Franza, Alemaña, Italia, Hungría ou Dacia (Romenia). Un terceiro explotará: que esaxeración!!! Afonso VII é denominado emperador de España e de Galiza. Digo eu que ben o sabería o Papa Calixto, irmán e curmán, respectivamente, dos condes Raimundo e Henrique, gobernadores consortes da Galiza histórica, por seren xenros de Afonso VI. Raimundo e Urraca eran o pai e a nai do futuro emperador, nado en Caldas de Reis, coroado por vez primeira na catedral de Santiago. Nin disparates, nin barbaridades, nin esaxeracións. Simplemente, consideracións e observacións conforme á realidade daquel tempo e o noso papel, non precisamente marxinal. En fin, para o Códice Calixtino Galiza é sempre a nación, a terra, o pobo, entre outras moitas e moitos europeos que tamén se nomean. Curiosidade: a sidra era entón a nosa bebida nacional por excelencia…

Felizmente, malia espolios sen miramentos, a Basílica Compostelá posuía até agora o máis antigo e valioso manuscrito desta composición do século XII. Era un dos Códices máis preciosos de toda Europa. A maior proba de desprezo real por esta xoia é a ignorancia sobre o seu contido, a desconsideración oficial polo que di. Esta ignorancia e descoñecemento, que nos consume, é a que alimentan precisamente os que nos abafan continuamente con cantos sobre a nosa españolidade. Así sempre desaparece a nosa historia, o noso papel na Península e no mundo, malia a contundencia das probas. A nosa condición de galegos e galegas nunca acada categoría política de seu nen relevancia como colectividade ou pobo. A información do Códice Calixtino é xustamente a que se agocha no sistema educativo, nos medios de comunicación. É a que se censura para construír unha conciencia social manipulada e servil. Por que Galiza non figura na historia medieval oficial e escolar coa relevancia e o papel que o Calixtino revela? Por que tanta censura e desprezo destinados a eliminarnos como pobo, nación ou terra con historia e tradición relevantes?

O espectáculo mediático prefire centrarse no caso como o dun outro roubo dunha xoia cultural de grande, incalculábel, valor monetario. Intentan centrar a atención social na investigación policial, learnos nun suspense con morbo paifoco e estrambótico. Postos a ser estrafalarios, adianto a miña sospeita de que o Códice aterrará misteriosamente no Vaticano. O furto podería ser obra do Espírito Santo inspirado polos ciumes de Roma por Compostela posuír un exemplar de maior valor. Non é broma, trátase de obra atribuída a un Papa e pode ser que, polos corredores vaticanos, aínda resoe a competencia, de todo tipo, que representaba Santiago en tempos remotos. El será tamén que repararían na incautación perante o hipotético, pero real, perigo de que, inspirándose no Códice, o pobo galego pretenda asumir identidade, carácter e vontade? Esta hipótese goréntame máis. Como lles dixen, o roubo material engádese ao perpetrado, desde hai séculos, sobre a historia que contén.

Quen a furtou? Con expresión inmaterial, pero de base material agresiva, digamos que a españolidade, á que serven e adulan moitos galegos e galegas renegados, que van de cultos. Fagamos que o impacto informativo redunde no esforzo colectivo por recuperar con incidencia e forza social a historia que nos negan. Galiza necesítao.

http://galiciaconfidencial.com/nova/8183.html

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Guerra do Ultramar. O Apocalipse now português.

Comemorando na Crunha o 1600 aniversário do Reino da Galiza.

Por Alexandre Banhos Campo

A Fundaçom Meendinho valoriza muito, neste ano de 2011, o impulsionamento de todo o tipo de atividades que lembrem que estamos no 1600 aniversário do nascimento do Gallaeciorum regnum lá no ano 411, na cidade de Braga – capital histórica da Galiza –.

A Galiza foi o Primeiro reino que se constituiu como tal dentro das fronteiras do Império Romano e já com o seu primeiro rei Hermerico teve moeda com o nome de reino da Galiza.

Além de outras questões, esse reino e as suas estruturas, – como com grande genialidade e intuição souberam pôr de relevo tanto Benito Viceto como Manuel Murguia no século XIX, nos primórdios do galeguismo moderno –, foi o forno onde se cozeu o pão da nossa nacionalidade, que dizer, foi ali onde foi gerado Portugal e também a atual Galiza, que está sob domínio espanhol. Sem esse reino o presente seria muito diferente.

Anteontem, dia 28, teve lugar mais um ato dos que vimos realizando, para os quais contamos com o apoio da As. Galega de Historiadores e, neste caso, a vontade amiga da A.C. Alexandre Bóveda da Crunha.

O Palestrante foi Xoan Bernardez Vilar, historiador, académico da RAG e associado da AGAL , quem leva publicado já mais de trinta livros, abrangendo tanto a divulgação histórica como os romances de temática histórica, de muito sucesso popular, como se percebe polas suas múltiplas reedições. Também teve uma pequena intervenção sobre este mesmo assunto do reino da Galiza o presidente da Meendinho, estando os dous acompanhados e apresentados polo Presidente da A.C. Alexandre Bóveda, Roberto Catoira.

Há às vezes nas pessoas uma doença terrível, que é o Alzheimer, que faz que os doentes vão perdendo a memória. As pessoas sem memória acabam sendo seres que vegetam, mas que não têm futuro e o seu passado lá fica esvaído nas trevas. Há povos a que neles se incute o vírus, neste caso os priões, geradores do Alzheimer social, doença terrível para os povos que a padecem, e que só se combate e se cura com memória, abelência social e esclarecimento, e nisso é que quer trabalhar incansável a F. Meendinho, como a melhor maneira de inserir a Galiza no espaço da Lusofonia a que pertence.

No ano 2000, Aquisgrão (Aachen em Alemão), junto com outras cidades europeias, foi cidade europeia da Cultura, e isto foi assim por se cumprirem o 1200 anos da proclamação de Carlos Magnocomo o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Por toda a Alemanha, e por outros países também, havia atos, palestras, programas nos meios, trabalhos nas universidades sobre esse feito e a sua importância histórica na configuração da moderna Europa e da Alemanha, e a importância do seu legado.

Sabei, amigos e amigas, que a importância disso era muito menor para a Alemanha que o Reino da Galiza para nós. Mas aqui os priões instalados no governo, nas instituições, na ignorância interesseira e espanholista que impera nas nossas universidades, faz que passem tão importantes feitos em bicos dos pés e no silêncio que ecoa ignominioso.

Em Portugal deveria ser outra cousa, mas há o problema esquisito de não entenderem certas elites provincianas que a Galiza histórica, sendo tal, já era verdadeiro Portugal, o que faz que também estes assuntos não tenham o relevo que corresponde.

Porquê foi tão importante o reino da Galiza para a Galiza e Portugal? Reparai neste primeiro e fulcral feito:

A sua criação foi recebida pelos galaico-romanos como uma benção, sim, como isso. Idácio de Chaves, um galaico-romano coevo, bem que no-lo conta, e não como uma desgraça. Os suevos trazem alegria ao povo, libertaram as pessoas da escravidão das dívidas e do fisco imperial, permitiram agromar por todo o lado muita iniciativa criadora.

Que era o que se deu para que isso fosse assim?

O pequeno grupo de germanos suevos que chegaram a essa província romana da Gallaecia com outras gentes germanas e não germanas, num totum revolutum, frente ao comportamento de outros povos, como por exemplo os visigodos, os saxões ou os lombardos, misturaram-se desseguida com o povo que os acolheu, adotaram a religião da maioria e deixaram a deles, integraram os galaico-romanos na suas empresas e governação, impulsionaram novos modos de governança.

Os inventos dos concílios, – conselhos do povo com todos os estamentos –, não nasceram nem em Toledo nem em Milão, nasceram na Galiza – Braga –, igual que depois mais tarde na Galiza nasceriam as modernas cortes, que se estenderam depois pola Europa.

Organizaram o território no Parrochiale Suevum ou Divisio Teodomiri, que ainda corresponde à nossa organização natural, muito bem continuada nessas maravilhosas estruturas administrativas de Portugal, que são as freguesias.

Nesse reino da Galiza criou-se um modelo de língua no latim proto-galaico que viria dar no nosso português moderno expandido pelos quatro cantos do mundo. Poucos povos podem proclamar tanto sucesso histórico.

O arco de ferradura não é árabe, é galego; a igreja de Santa Comba de Bande e a sua gémea de Viseu, não são visigóticas, são criações originais do nosso povo.

Esse reino estabeleceu uns limites fronteiriços do território bastante estáveis, que vão ser o cerne da nossa nacionalidade, e que depois, na reconquista frente ao muçulmano, foram expandidos.

Lembremo-los: no leste os rios Águeda, Douro e Órbigo eram a raia; no nordeste, sempre em dura e constante luta, fundaram Ovetum (Oviedo) como forte de defesa, e deram ao rio que fazia de fronteira o nome do território externo que marcavam, rio Hispania, que hoje leva o nome de Espanha e fica um pouco a leste de Gijom; no sul a fronteira estava no Tejo e na linha que de este nos leva ao promontório de Peniche.

Deixaram-nos inúmeros nomes na nossa toponímia, que respondem não a uma imposição e sim à alegria da sua aceitação pelo nosso povo; povo que popularmente e até muito recentemente usava os nomes germânicos de maneira dominante, como contraste com os nomes das elites espanholas dominadoras, que os usavam latinos ou judeus.

Poderíamos estar indefinidamente falando das marcas que nos deixaram, algumas na vida do dia-a-dia, da broa (pão em germânico) ao lardo (toucinho em germânico), mas sabei que depois de quase douscentos anos de existência consolidada como importante reino da cristandade, não desapareceram. Isso é completamente falso.

Na Ibéria visigótica a Galiza foi sempre um reino distinto e inconfundível com a Espanha, que permaneceu e continuou distinto na sua governação. Estão aí as atas todas dos concílios de Toledo – esses, copiados do modelo galaico – para o demostrar; e estão as fontes históricas para nos indicar que mais de um rei godo, antes de o ser em Toledo foi-o na Galiza, como por exemplo Witiza, e que na Galiza sempre havia a figura duma personagem com a condição real.

Chegou a invasão muçulmana e a Galiza safou-se da dominação. Salvou-se com um penhor, uma coima que não teve longa duração. As dioceses da Galiza, com a própria Braga, são as únicas dioceses peninsulares que tiveram continuidade no tempo e nunca ficaram vagas.

Frente ao muçulmano, é a Galiza, o poder que o vai enfrentar. Só a Galiza aparece nos textos muçulmanos e dos demais reinos cristãos da Europa, francos, lombardos, anglo-saxões, normandos...

Castela-Espanha nasceu como uma força separatista1, frente à Galiza, e triunfou afirmando-se contra a Galiza e negando-a. O submetimento da parte norte da Galiza e os instrumentos nacionalizadores da escola e das suas instituições espanholas socializaram os priões da desmemória do nosso ser. Só o conhecimento consciente e o desvendar os feitos, pode fazer-nos livres e seguros de nós próprios.

Além disso, o sucesso dessa parte fulcral da Galiza, que é Portugal, graças ao maravilhoso milagre da sua separação e nascimento como Estado diferenciado2, fez que a nossa língua e cultura seja um referente internacional, o qual, como dizemos na Meendinho, é ouro nas nossas sacolas e faltriqueiras.... não deixemos que nos roubem, abramos todos e todas bem os olhos.